Como tudo que escrevo refere-se única e exclusivamente sobre mim, então lá vai mais uma.Tenho vivido um momento paradoxal dentro de mim: se de um lado tenho experimentado coisas grandiosas em relação ao Evangelho, minhas percepções sobre a graça cada dia aumentam, minha motivação em amar o próximo e a Deus tem sido algo fantástico; por outro lado tenho experimentado uma dês-motivação estranha no meu corpo e na minha mente. Há uns meses atrás, escrevia como nunca, pregava como nunca, ensinava como nunca; todavia, nestas ultimas semanas, me sinto como se já tivesse escrito tudo o que sei, pregado tudo o que aprendi no Evangelho, e ensinado todo o arcabouço que construí no conhecimento. Sinto um tipo de exaustão na alma, na mente e no corpo.

Indagaram-me se isto seria uma inconstância de minha parte… Digo que talvez! Porém, se o for, não me sinto nem um pouco desconfortável com esta situação. A inconstância faz parte do processo natural e evolutivo das coisas. Entretanto, muita gente se assusta com esta palavra. Para a maioria das pessoas, como para a maioria dos religiosos, inconstância significa estar fora do rol dos bem-sucedidos, porque, como eles pensam que podem ser super-homens, vêem na inconstância um sinal de fraqueza e impotência; e, como estes tentam controlar a vida e todas as suas variáveis, não admite tais circunstâncias e começam a exorcizar qualquer manifestação da alma nesta direção.

Eu não penso assim. Vejo que a vida nestes momentos de baixa está nos pedindo para darmos um tempo maior para a reflexão. Ou seja, inconstância, para mim, é um momento de descanso, um ato de recarregar as baterias; e tudo isso sem a mínima neurose, porque tudo faz parte da maravilhosa dança do Universo, orquestrada e regida por, nada mais, nada menos pelo GRANDE EU SOU.

Deus deixou este aviso em toda a criação – só não vê quem não quer: nada é constante. E isso pode ser verificado nas afirmações de Jesus: “o mundo passa…”, ou seja, tudo se transforma; tudo na criação é inconstante. Se não houvesse isso, podem acreditar, não haveria os filósofos, os poetas, os reformadores, os músicos, os pintores, e mais um bocado de gente boa que interpreta a alma com uma leveza só.

Para crescer é necessário passar por estes momentos. Como nos diz um dos títulos de livro do Leonardo Boff: crise é uma oportunidade de crescimento. Sem momentos assim, sem estas aparências paradoxais, ninguém pode sair do estágio de menino e se tornar homem. A vida e todas as suas ambigüidades é quem dão cor a existência, por isso a tempo de rir e tempo de chorar. A bíblia nunca vê estes estágios como algo sendo ruim, mas é o homem moderno, que busca ser tudo, menos humano, é que enxerga algo ruim em tudo isso. Agora, me digam: por que o homem quer viver tão arrogantemente querendo expurgar de seu ser algo que nos ajuda a transformar? Ë por causa da velha síndrome do “sereis semelhantes a Deus”, que impulsiona o homem a pensar dessa maneira. Entretanto, meu amigo, só Deus é constante. A criação não. Ele é; nós apenas nos tornamos.

Por isso, meu amigo, viva tranqüilo sabendo que tudo passa. Aproveite, quando estiver nestes dias, para descansar e se sinta desobrigado de vencer a inconstância. Lembre-se: você é homem, não máquina, já nos dizia Charlie Chaplin.

A única advertência que dou é a seguinte: assim como tudo na vida está sujeito a vicio, não faça de sua inconstância um vicio. Fazendo isso, a inconstância se tornará constância na alma que já se viciou; e isto é altamente ruim, pois quando a inconstância torna-se um vicio, ela extingue todos os referenciais que a alma precisa para lhe ajudar a caminhar com discernimento; sendo assim, não faça mal a si mesmo. Sobretudo, trate a vida com leveza e com a mente tranqüila, pois este sentimento pode ser proveitoso se for tratado como uma oportunidade de crescer na graça e no conhecimento, e tudo sem neurose e sem culpa.

Sossegue a alma, nesse tempo. Pare e reflita, pois a vida está te preparando para a caminhada; você verá que quando estiver em alta, aí sim é a vida lhe dizendo que é hora de compartilhar tudo aquilo que foi refletido e que lhe ajudou a crescer, no seu período de descanso. Pois todas estas circunstâncias fazem parte dessa caminhada que se chama vida. Aliás, pensando aqui com meus botões, não seria a inconstância aquele mesmo anjo que se encontrou com Elias e lhe disse: “coma e beba, porque a tua caminhada ainda é longa”?

 

Pense e reflita.

 

Victor

Anúncios