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Tenho de confessar que viver uma vida que não deixe saudade me dá mais medo do que a morte em si. Não é difícil entender o porquê, afinal o que se seguirá após a morte é, pelo menos a mim, desconhecido, enquanto o que ficará, sobreviverá à futilidade do meu pobre corpo humano. E, convenhamos, ninguém sabe mais do que eu o que estou a construir.

Não tenho medo da morte, mas antes que isso soe arrogante, corroboro com Sponville quando ele diz que sofrível não é a morte propriamente dita, mas o morrer. A dor, a agonia, o sofrer, ah, isso me dá medo. Mas apesar de todo esse pavor ao sofrimento, reverencio a morte. Sem ela, não existe vida (nela), não há ressurreição. Ouso dizer que a ressurreição (para nós, os cristãos), é a vida na morte.

Sponville diz, ainda, que a morte é um problema para os vivos, não para os mortos. Mas, com a esperança da fé cristã, insisto em não encará-la como um problema. Alguns virão com textos bíblicos, dizendo que a morte é inimiga da vida – o último a ser vencido; a morte já morreu etc, mas sinto que precisamos ressignificar alguns textos, inclusive repensar a morte. Ora, os orientais (inclusive a igreja cristã oriental) não veem a morte como um inimigo da vida, mas sim como um uma glorificação.

Mas, parafraseando Sponville, a glória da morte está na vida. A morte por si só de nada se aproveita. É um elemento “a definir” na existência. O que dá sentido à morte é a vida: para o filho que teve um pai violento e agressivo, a morte pode ser um alívio, e para o pai, uma condenação; enquanto que para a mãe que perdeu um bom filho morto por uma bala perdida numa favela brasileira, a morte é uma faca enfiada em seu coração, ela mesma, a morte, poderá ser uma glorificação para esse filho, afinal, se ele viveu uma vida bonita, será sempre lembrado como um bom exemplo de ser humano.

Devo mencionar que para nós, os vivos, a morte pode ser cruel porque nos fere com uma ferida incurável: a saudade. Ignorá-la ou fingir que sua dor não é profunda, é desumanizar-se. Temos o direito de chorar, pois choramos às lembranças e a saudade é um mar aonde desaguam rios de boas lembranças. No entanto, a saudade não pode se transformar em peso, roubando-nos o gosto pela vida. Somos desafiados a velejar por mares de águas tão doces, porém tão bravas. Felizes os que fazem da saudade potencializadora da existência.

Rubem Alves estava certo, quando perguntado se tinha medo da morte, ele respondeu: não, tenho dó, afinal viver é tão bom. Todos temos o direito de sentir essa dó, pois gostamos de viver. Viver é maravilhosamente bom, muito mais para aqueles que aprenderam a se impressionar com os detalhes e a viver intensamente todas as emoções. Mas um dia a morte chegará, a vida será envolta em um pra sempre até que, potencializada de eternidade, se dê a ressurreição. Somente então ficará provado que a morte não é inimiga da vida, não é o seu fim, mas sua exaltação.

Will+

1. Imagem da pintura “vida florescendo”, de Quim Alcantara;

2. Citações de André Comte-Sponville, retiradas do livro “A vida humana”;

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