O Ensaio

afeto
a.fe.to
sm (lat affectu) 1 Sentimento de afeição ou inclinação para
alguém. 2 Amizade, paixão, simpatia. adj 1 Afeiçoado. 2
Entregue ao estudo, ao exame ou à decisão de alguém:
Essa função está afeta à Assembléia.

Toda definição é arriscada. Delimitar seja lá o que for é, antes de tudo, uma tarefa para gênios e ignaros. A falta de exatidão naquilo que é definido pelos homens nunca foi suficiente para inibi-los em seu árduo intento de conceituar as coisas. Precisamos mesmo de mentes pensantes para formar nossos conceitos básicos acerca dos mais variados assuntos a despeito se as definições serão perfeitas ou não – a perfeição não é deste mundo. A mente incansável supõe um espírito inquieto. Daí o gênio: diante do absurdo, a tentativa da explicação, de dar nomes, de fixar limites. E isso, não necessariamente para nos impor fronteiras, mas a fim de que uma mínima organização seja possível. O que seria de nós se não soubéssemos nada acerca do que é moral, política, liberdade, justiça, amor? Não há assuntos encerrados, obviamente, porém o caminho que já trilhamos no saber enquanto sujeitos históricos nesse mundo não pode ser desdenhado. A filosofia, a teologia, a psicologia, a ciência, a literatura, os folclores, entre outros, apesar de não terem dito tudo, já nos disseram muito. A imperfeição de nossas definições não deve nos paralisar, mas servir de inspiração e base para que novos pensamentos venham à tona. Nesse empreendimento, como os gênios, devemos apresentar novas concepções, tensionar o estabelecido, desafiar lógicas, contudo, não podemos ceder à tentação de tornar absoluto o que nós descobrirmos. Daí o ignaro: diante do absurdo, a tentativa da explicação, mas também, a insensata pretensão de absolutizar o que se disse. Por mais que uma definição se mostre plausível e digna de toda aceitação, é muito arriscado batizá-la de verdade absoluta. Verdades existem? Sim. Se não houvesse verdades, seria mentira a afirmação de que verdades não existem. Verdades não mudam? Não. Se verdades não mudassem, não experimentaríamos os avanços e retrocessos que se revezam na história humana. Debaixo da genialidade do gênio e da insensatez do ignaro há a própria condição do homem. Antes de genialidades ou loucuras, nossa inevitável curiosidade. Cabe aqui portanto uma correção: delimitar seja lá o que for é, antes de tudo, um desejo humano. Sendo assim, gênios e ignaros se arriscam em suas definições porque não há ser humano que não o faça.

No campo das definições, “afeto” pode ser entendido como descrito acima, no dicionário. Nada do que está lá se aproxima do que insinuaremos aqui com relação a esta palavra. Não entendemos afeto como apenas um sentimento de inclinação por alguém. Essa definição cumpre seu papel, mas incompletamente. Amizade, paixão, simpatia? Sim, mas não só isso. Quem não se sente afetado pelo outro quando é agredido física ou verbalmente? Agressão como parte de passionalidades é admissível, mas o que tem a ver a agressão com amizade e simpatia? Afeiçoado: como ser afeiçoado a quem nos feriu repetidas vezes e como dizer que tal ferimento não nos afetou? As definições apresentadas pelo dicionário, como citado acima, servem à organização mínima de nossos pensamentos a respeito da palavra, mas nem de longe a encerra. Palavras são indômitas. Todo texto se mexe.

Spinoza, Deleuze e Guattari, na Filosofia, conceituaram afeto (do latim, affectus) como um estado de alma, um sentimento. E isso nos parece mais abrangente do que simplesmente dizer que afeto se trata de um sentimento bom. Spinoza foi além e disse que afeto é uma mudança ou modificação que acontece simultaneamente no corpo e na alma. O afeto possui uma concepção muito ampla envolvendo a História, a Filosofia, a Psicanálise (especialmente com Freud e Lacan) e também a Literatura. Nossa intenção aqui não é absolutizar um conceito de afeto, de maneira nenhuma; antes, reconsiderá-lo a partir não só das ideias, mas das experiências do cotidiano, da vida agitada de um mundo globalizado e do tédio vivido, da alegria e da tristeza, da abundância e da escassez, da esperança e dos momentos de cinismo, do medo e da fé. Pensaremos afeto, e aqui residem nossas limitações na mesma proporção que nossas ousadias, não como sentimento bom exclusivamente, mas como algo que nos toca. Nisso, no nosso sentir, a conceituação dos filósofos e demais pensadores é mais rica que a do dicionário. Este blog insinuará o afeto como uma mente que sente, e um sentimento que pensa.

Daí, caro leitor, detrás de cada texto nem sempre você encontrará uma fundamentação teórica, mas só a nossa pele, a pele tua, essa pele: a pele do ser humano em cenas, fragmentos e dizeres do corpo. É bom ter você por aqui.

1 thought on “O Ensaio”

  1. Emanuela Sampaio said:

    Parabéns!! Belo texto 🙂 Excelente Blog !! Sucesso!

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